Arrumação.

Às palavras, que perdi.

Dia desses perdi as palavras. Mas não como quem fica embasbacado com alguma situação. Perdi como quem perde um coiso assim num canto qualquer. A linguagem, preservo-a intacta, se é que há alguma valia nisso. As palavras, porém, perdi. Todas.

Não tem muito o que entender mesmo não. Foi exatamente assim que aconteceu. Como num conto fantástico, talvez. Como num canto disfásico – mais provável. Como alguém que perde o corpo e preserva a silhueta. E é como essa bolinha azul onde a gente mora que a minha linguagem se mantém. Completamente sem sustentação. Mantém-se, não obstante. E não é que eu tenha encontrado gestos ou expressões e cunhado criativamente uma substituição. Não é não. Até porque, digamos assim, gestos e palavras poderiam ser sinônimos neste contexto, ou em outros. Confesso, encontro-os todos o tempo todo. Às vezes até, como quem não quer nada, enfio uns debaixo da mobília ou colo que nem chiclete sob a mesa (não estou incentivando a prática, apesar de respeitá-la) e saio de mansinho, deixando lá para alguém, quem sabe, grudar o seu em cima.

Já pensou? Seriam dois corpos fundidos cheios de silhueta e sombra, completamente indiferentes às palavras que perdi.

Ando agora com essa mania de fazer referência a músicas. É só uma forma de dizeres.

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