Dos heróis

Assistia à segunda parte da série de reportagens do SBT intitulada “Sob o sol do Sudão”. Então ouvi o repórter findar sua matéria: “A capital é suja, não tem limpeza pública. Apenas 5% das ruas são asfaltadas. Apagão aqui acontece a toda hora. A energia fornecida pelo governo é pré-paga, só tem luz quem paga antes; para a maioria, a saída são os geradores. Aqui metade da população está abaixo da linha da pobreza, mais de 20 milhões de pessoas sobrevivem com apenas dois reais por dia. Para resolver tudo isso, só a democracia.”

A democracia aos sudaneses! Mas e a nós que já fomos resolvidos por ela?

Ao que parece, diante de discursos tão cheios de discurso e de fatos como o do discurso, o que configura um herói não é senão o fato de ele não nos pertencer, de sua sobrevivência dar-se em pleno vigor e beleza no plano dos planos. Assim que o tal candidato a salvador da pátria materializa-se em nossa frente, prostramo-nos diante dele, porém não como quem reverencia, mas como quem estremece diante do indissolúvel, de cérebros e bocas e olhos e mãos e visgos mil.

Fogos e artifício

Mil e várias coisas pra fazer nos últimos dias e, em decorrência, essa ausência em meu blog, ainda nem inaugurado neste ano que já vai indo e… sangrando…

Queria que meu primeiro post de 2010 tratasse sobre meus anseios para este ano que já começa com tantas inundações – todas elas -, falasse sobre querer ver menos gente perdida do que tenho visto. Sobre estarmos menos perdidos do que temos estado. Tudo é tão dúbio que desejaria um ano mais claro, com gente mais destemida de tirar as vestes, as cascas, as castas, a pele e se mostrar tão dúbia quanto é, entregando um pouco de luz aos outros e a si. Todavia ando desconfiada… O pós-modernismo plantou mesmo fantasmas por toda parte…

Sendo assim, desejo-nos um ano menos fotográfico, menos midiático, menos virtual. Mas fogo, artifício. Mais tristeza, daquela que configura.

Um ano sem pessimismo, sem otimismo. Esperançosamente – tão e somente- sentido, compartilhado, apreciado.

Ao Haiti, ao Jd. Pantanal, ao Jd. Romano, desejos.

Aos 30 de janeiro de 2010, Feliz Ano Novo!, DES-E-S-P-E-R-A-D-A-M-E-N-T-E.

Como a igreja (nós/instituições) pode servir de fato à sociedade?

Como a igreja (nós/instituições) pode servir de fato à sociedade? by yuripadilha

demorei pra responder pq isso dá um texto enooorme, yuri. me sinto em liberdade p/ falar das falhas recorrentes pq sou um dos culpados por essa igreja anêmica e debilitada. afinal, ajudei a vender 10 milhões de livros p/ o rebanho e o remédio literário parece ñ ter servido nem como paliativo.
se uma geração que cresceu ouvindo músicas de primeira e lendo bastante ñ foi capaz sequer de preparar líderes p/ cuidar da galera de hj, o que esperar do futuro? é só passar por comus orkutianas de jovens adestrados p/ imaginar o que o futuro nos reserva. vem muito fogo por aí, e ñ tô falande de pentecoste. fogueiras de inquisição mesmo…
repensar os modelos usados p/ entreter ou policiar sexualmente a juventude quem sabe produzissem algumas exceções ao bunda-molismo vigente.
tanto falaram em sexo que o resultado tem sido uma legião de impotentes em vários sentidos…

(Sérgio Pavarini – http://www.formspring.me/pavarini)

Penso, logo existo?

Não sou onde penso, e penso onde não sou.

(Lacan)

A alma que me cabe

Ao embarcarmos nessa jornada em busca de um “coração que abraça o mundo”, nada mais natural que dedicar a atenção ao mundo que se deve e se quer abraçar: suas dores, imperfeições, mazelas e males, e suas gentes sofridas e vitimadas, ou cruéis, malvadas, violentas e indiferentes. Mas é fato que a tentação de se atirar na direção do mundo a ser abraçado sem a devida atenção ao coração que pretende abraçá-lo compromete a missão. É bom lembrar que também fazemos parte da “multidão” que queremos abraçar. Talvez seja esse exatamente o segredo da missão – abraçar a si mesmo no abraço ao outro, vendo o outro não como estranho, mas um igual; ver o outro não como alma a ser salva, mas reflexo da própria alma que pretende ser instrumento de salvação. O outro não é outro, senão eu mesmo fora de mim. Nele me vejo. Em sua alma a ser redimida enxergo a mim mesmo, também carente de salvação. Descubro no ato de abraçar que a verdadeira alma a ser salva é a minha. Somente assim, nessa confusão; comunhão dos abraços, percebo que o mundo que pretendo e desejo abraçar não é um mundo construído apenas pelo outro que outrora eu pretendia salvar, nem tampouco um mundo estranho que é preciso transformar. O mundo passa a ser expressão de mim mesmo; sou eu também responsável pela feiúra do mundo que pretendo tornar belo. Antes de tentar abraçar o outro e seu mundo, somos chamados a encarar o mundo e o outro como quem olha um espelho: ver a nós mesmos e o mundo que ajudamos a construir. Assumir o desafio perene de que a verdadeira alma que nos cabe é a nossa mesma. A profecia começa sempre pela casa do Senhor.

Ed René Kivitz: http://www.ibab.com.br/ed091115.html

Doce engano

Você não conseguirá pensar decentemente se não quiser ferir-se a si próprio.

(Wittgenstein)

Há situações extremas que, vistas de fora e de longe, parecem-nos – e de fato foram – absurda e inexplicavelmente desumanas. Mas elas não pareceram assim aos olhos de todos aqueles que, de dentro e de perto, as viveram, as justificaram para si mesmos e as perpetraram. Era gente terrível, covarde, assustada e sinistra, porém tão humana quanto qualquer outra gente. A experiência de situações de extrema adversidade na história da humanidade – guerras, fomes, epidemias, hiperinflações, tiranias, pânicos, catástrofes etc. – revela, com raras exceções, comportamentos e traços de caráter que desmentem as ilusões que alimentamos sobre nós mesmos em tempos de paz e normalidade.

A pergunta desagradável é: quantos de nós teríamos sido “os outros”, os inexplicavelmente desumanos, omissos e cruéis? Quantos de nós teríamos agido como eles agiram em circunstâncias análogas? É provável que os mais suspeitos e perigosos sejam, precisamente, aqueles que não têm ou não se permitem nenhuma dúvida. O pior cego é o que está seguro e convicto de que . Não há nada mais fácil do que apontar os erros, preconceitos e fanatismo dos outros enquanto permanecemos cegos e insensíveis para os nossos próprios.

A passagem do micro ao macrocosmo do auto-engano – o fio secreto unindo na mesma trama a realidade individual da parcialidade de cada um por si próprio e a resultante agregada de um mundo estranho e errado – aparece de forma clara e inadvertidamente sugestiva no poema “Viajando num carro confortável”, de Bertold Brecht:

Viajando num carro confortável

Por uma estrada chuvosa do interior

Avistamos ao cair da noite um homem rústico

Solicitando-nos condução com um gesto humilde.

Tínhamos teto e tínhamos espaço e seguimos em frente

E ouvimos a mim dizer num tom de voz árido: “Não,

Não podemos levar ninguém conosco”.

Tínhamos avançado já boa distância, um dia de viagem talvez.

Quando subitamente fiquei chocado com esta voz minha

Com este comportamento meu

E todo este mundo.

O viajante-protagonista olha para trás, reflete e não se reconhece no que fez. Dois momentos, duas vozes: a primeira, que nega ajuda no momento em que a oportunidade de oferecê-la se oferece, e a segunda, que conta o ocorrido e não se reconhece na outra voz. A voz audível, entre aspas no poema, que nos causa repugnância, e a voz silenciosa que narra, expressa remorso, condena este mundo errado e conquista nossa simpatia ao castigar a outra.

O problema, contudo, é a relação no tempo entre essas duas vozes. A situação descrita no poema, cabe indagar, assinala a conversão do viajante? Ela registra a passagem definitiva de uma voz egoísta que morre (a primeira) para uma voz generosa que nasce e toma o lugar da outra (a segunda)? Ou ela ilustra, antes, um padrão de alternância estratégica entre duas vozes aparentemente opostas, mas no fundo siamesas? Até que ponto a comoção sincera e a reflexão sutilmente confortadora da segunda voz garantem que a outra voz foi mesmo silenciada e que, da próxima vez, será diferente?

Nossos sentimentos e auto-imagem têm a propriedade singular de se ajustarem, sem nos darmos conta, às circunstâncias que nos cercam. Mais que fácil, é doce imaginar-se firme, generoso e solidário no abstrato, enquanto a tentação de não sê-lo é remota e o desafio é apenas hipotético. Por que não banhar-se ao sol da auto-aprovação e de uma imagem generosa de si mesmo enquanto a tempestade anda longe? O tempo, contudo, vira. E, quando ele vira – quando a oportunidade concreta por fim se oferece de provarmos na prática que somos de fato tudo aquilo que imaginamos ser -, a voz que ouvimos deixa, com frequência, de ser a nossa. Ações falam. E o que nossas ações falam nem sempre é o que nos acostumamos a ouvir, em silêncio, enquanto o futuro é algo em aberto, a promessa, generosa, e o desafio, remoto.

(Eduardo Giannetti, em Auto-Engano)

O problema da liberdade

Quem pode ser considerado livre? Uma pessoa livre não é sempre aquela cujas ações são dominadas por sua própria vontade, porque a vontade não é uma entidade definitiva e isolada, mas, ao contrário, é determinada em suas motivações, por forças que estão além de seu controle. Uma pessoa também não é livre mesmo que ela seja o que quiser ser, porque o que a pessoa quer ser, obviamente, é determinado por fatores que estão além de seu controle. Aquele que faz o bem por fazer o bem deve ser considerado livre? Mas como é possível fazer o bem pelo próprio bem?Liberdade?

Como, então, a liberdade pessoal é possível? Sua natureza é um mistério, e a sucessão formidável de evidência cumulativa para o determinismo torna muito difícil para nós acreditarmos na liberdade. E, ainda assim, sem essa crença não resta nenhum sentido para a vida moral. Sem considerar a liberdade seriamente, é impossível considerar a humanidade seriamente.

(Abraham joshua Heschel, em Deus em Busca do Homem)

Todo Cambia

Triste perda!

Todo cambia

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Pero no cambia mi amor…

Muda o superficial
também muda o profundo
muda o modo de pensar
muda tudo neste mundo.

muda o clima com os anos
muda o pastor e seu rebanho
e assim como tdo muda
que eu mude não é estranho.

muda o mais fino brilhante
de mão em mão o seu brilho
muda o ninho, o passarinho
muda o sentir de um amante.

muda de rumo o caminhante
mesmo que isso lhe cause dano
e assim como tudo muda
que eu mude não é estranho.

muda, tudo muda
muda, tudo muda
muda, tudo muda
muda, tudo muda.

muda o sol em seu caminho
quando a noite resiste
muda a plante e se veste
de verde a primavera

muda a pelagem da fera
muda o cabelo do ancião
e assim como tudo muda
que eu mude não é estranho

mas não muda meu amor
por mais distante que me encontre
nem as lembranças, nem a dor
de meu povo e minha gente

o que mudou ontem
terá que mudar amanhã
assim como mudo eu
nesta terra distante.

Calejados

Não sei. A cada dia sei menos coisas. Antigas certezas se diluem: calejados pelas decepções, vacinados contra a indignação, não sabemos direito o que pensar. Então não pensamos.

(Lya Luft)

Estagnação

Um dia, de manhã, enquanto pedia ao atendente da padaria que me escolhesse os pães mais torrados, minha alma se despregou do espírito.

Naquele instante, pela primeira vez, estagnei. Vi corpos sem espírito, e almas sem corpos por toda parte. Não enxerguei nem um homem completo desde então. Acho que, embora os profetas tenham tentado nos unificar, os filósofos nos fragmentaram completamente.

Queria me lembrar como era antes desse dia.