A alma que me cabe

Ao embarcarmos nessa jornada em busca de um “coração que abraça o mundo”, nada mais natural que dedicar a atenção ao mundo que se deve e se quer abraçar: suas dores, imperfeições, mazelas e males, e suas gentes sofridas e vitimadas, ou cruéis, malvadas, violentas e indiferentes. Mas é fato que a tentação de se atirar na direção do mundo a ser abraçado sem a devida atenção ao coração que pretende abraçá-lo compromete a missão. É bom lembrar que também fazemos parte da “multidão” que queremos abraçar. Talvez seja esse exatamente o segredo da missão – abraçar a si mesmo no abraço ao outro, vendo o outro não como estranho, mas um igual; ver o outro não como alma a ser salva, mas reflexo da própria alma que pretende ser instrumento de salvação. O outro não é outro, senão eu mesmo fora de mim. Nele me vejo. Em sua alma a ser redimida enxergo a mim mesmo, também carente de salvação. Descubro no ato de abraçar que a verdadeira alma a ser salva é a minha. Somente assim, nessa confusão; comunhão dos abraços, percebo que o mundo que pretendo e desejo abraçar não é um mundo construído apenas pelo outro que outrora eu pretendia salvar, nem tampouco um mundo estranho que é preciso transformar. O mundo passa a ser expressão de mim mesmo; sou eu também responsável pela feiúra do mundo que pretendo tornar belo. Antes de tentar abraçar o outro e seu mundo, somos chamados a encarar o mundo e o outro como quem olha um espelho: ver a nós mesmos e o mundo que ajudamos a construir. Assumir o desafio perene de que a verdadeira alma que nos cabe é a nossa mesma. A profecia começa sempre pela casa do Senhor.

Ed René Kivitz: http://www.ibab.com.br/ed091115.html

Doce engano

Você não conseguirá pensar decentemente se não quiser ferir-se a si próprio.

(Wittgenstein)

Há situações extremas que, vistas de fora e de longe, parecem-nos – e de fato foram – absurda e inexplicavelmente desumanas. Mas elas não pareceram assim aos olhos de todos aqueles que, de dentro e de perto, as viveram, as justificaram para si mesmos e as perpetraram. Era gente terrível, covarde, assustada e sinistra, porém tão humana quanto qualquer outra gente. A experiência de situações de extrema adversidade na história da humanidade – guerras, fomes, epidemias, hiperinflações, tiranias, pânicos, catástrofes etc. – revela, com raras exceções, comportamentos e traços de caráter que desmentem as ilusões que alimentamos sobre nós mesmos em tempos de paz e normalidade.

A pergunta desagradável é: quantos de nós teríamos sido “os outros”, os inexplicavelmente desumanos, omissos e cruéis? Quantos de nós teríamos agido como eles agiram em circunstâncias análogas? É provável que os mais suspeitos e perigosos sejam, precisamente, aqueles que não têm ou não se permitem nenhuma dúvida. O pior cego é o que está seguro e convicto de que . Não há nada mais fácil do que apontar os erros, preconceitos e fanatismo dos outros enquanto permanecemos cegos e insensíveis para os nossos próprios.

A passagem do micro ao macrocosmo do auto-engano – o fio secreto unindo na mesma trama a realidade individual da parcialidade de cada um por si próprio e a resultante agregada de um mundo estranho e errado – aparece de forma clara e inadvertidamente sugestiva no poema “Viajando num carro confortável”, de Bertold Brecht:

Viajando num carro confortável

Por uma estrada chuvosa do interior

Avistamos ao cair da noite um homem rústico

Solicitando-nos condução com um gesto humilde.

Tínhamos teto e tínhamos espaço e seguimos em frente

E ouvimos a mim dizer num tom de voz árido: “Não,

Não podemos levar ninguém conosco”.

Tínhamos avançado já boa distância, um dia de viagem talvez.

Quando subitamente fiquei chocado com esta voz minha

Com este comportamento meu

E todo este mundo.

O viajante-protagonista olha para trás, reflete e não se reconhece no que fez. Dois momentos, duas vozes: a primeira, que nega ajuda no momento em que a oportunidade de oferecê-la se oferece, e a segunda, que conta o ocorrido e não se reconhece na outra voz. A voz audível, entre aspas no poema, que nos causa repugnância, e a voz silenciosa que narra, expressa remorso, condena este mundo errado e conquista nossa simpatia ao castigar a outra.

O problema, contudo, é a relação no tempo entre essas duas vozes. A situação descrita no poema, cabe indagar, assinala a conversão do viajante? Ela registra a passagem definitiva de uma voz egoísta que morre (a primeira) para uma voz generosa que nasce e toma o lugar da outra (a segunda)? Ou ela ilustra, antes, um padrão de alternância estratégica entre duas vozes aparentemente opostas, mas no fundo siamesas? Até que ponto a comoção sincera e a reflexão sutilmente confortadora da segunda voz garantem que a outra voz foi mesmo silenciada e que, da próxima vez, será diferente?

Nossos sentimentos e auto-imagem têm a propriedade singular de se ajustarem, sem nos darmos conta, às circunstâncias que nos cercam. Mais que fácil, é doce imaginar-se firme, generoso e solidário no abstrato, enquanto a tentação de não sê-lo é remota e o desafio é apenas hipotético. Por que não banhar-se ao sol da auto-aprovação e de uma imagem generosa de si mesmo enquanto a tempestade anda longe? O tempo, contudo, vira. E, quando ele vira – quando a oportunidade concreta por fim se oferece de provarmos na prática que somos de fato tudo aquilo que imaginamos ser -, a voz que ouvimos deixa, com frequência, de ser a nossa. Ações falam. E o que nossas ações falam nem sempre é o que nos acostumamos a ouvir, em silêncio, enquanto o futuro é algo em aberto, a promessa, generosa, e o desafio, remoto.

(Eduardo Giannetti, em Auto-Engano)

O problema da liberdade

Quem pode ser considerado livre? Uma pessoa livre não é sempre aquela cujas ações são dominadas por sua própria vontade, porque a vontade não é uma entidade definitiva e isolada, mas, ao contrário, é determinada em suas motivações, por forças que estão além de seu controle. Uma pessoa também não é livre mesmo que ela seja o que quiser ser, porque o que a pessoa quer ser, obviamente, é determinado por fatores que estão além de seu controle. Aquele que faz o bem por fazer o bem deve ser considerado livre? Mas como é possível fazer o bem pelo próprio bem?Liberdade?

Como, então, a liberdade pessoal é possível? Sua natureza é um mistério, e a sucessão formidável de evidência cumulativa para o determinismo torna muito difícil para nós acreditarmos na liberdade. E, ainda assim, sem essa crença não resta nenhum sentido para a vida moral. Sem considerar a liberdade seriamente, é impossível considerar a humanidade seriamente.

(Abraham joshua Heschel, em Deus em Busca do Homem)

Todo Cambia

Triste perda!

Todo cambia

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Pero no cambia mi amor…

Muda o superficial
também muda o profundo
muda o modo de pensar
muda tudo neste mundo.

muda o clima com os anos
muda o pastor e seu rebanho
e assim como tdo muda
que eu mude não é estranho.

muda o mais fino brilhante
de mão em mão o seu brilho
muda o ninho, o passarinho
muda o sentir de um amante.

muda de rumo o caminhante
mesmo que isso lhe cause dano
e assim como tudo muda
que eu mude não é estranho.

muda, tudo muda
muda, tudo muda
muda, tudo muda
muda, tudo muda.

muda o sol em seu caminho
quando a noite resiste
muda a plante e se veste
de verde a primavera

muda a pelagem da fera
muda o cabelo do ancião
e assim como tudo muda
que eu mude não é estranho

mas não muda meu amor
por mais distante que me encontre
nem as lembranças, nem a dor
de meu povo e minha gente

o que mudou ontem
terá que mudar amanhã
assim como mudo eu
nesta terra distante.

Calejados

Não sei. A cada dia sei menos coisas. Antigas certezas se diluem: calejados pelas decepções, vacinados contra a indignação, não sabemos direito o que pensar. Então não pensamos.

(Lya Luft)

Estagnação

Um dia, de manhã, enquanto pedia ao atendente da padaria que me escolhesse os pães mais torrados, minha alma se despregou do espírito.

Naquele instante, pela primeira vez, estagnei. Vi corpos sem espírito, e almas sem corpos por toda parte. Não enxerguei nem um homem completo desde então. Acho que, embora os profetas tenham tentado nos unificar, os filósofos nos fragmentaram completamente.

Queria me lembrar como era antes desse dia.

Individualismo coletivo

Sempre achei que a minha subjetividade era anterior à própria vida. Hoje, olho ao redor e percebo todas as pessoas subjetivando-se junto comigo. Quando passamos pelas mesmas fôrmas, roubaram-me a mim. E o que era para ser a dádiva do encontro comigo no outro, torna-se o castigo do espelho.NARCISO

Quando olho no espelho, não me vejo, vejo o mundo com seus olhos sedentos de fera querendo me consumir. Quando olho no espelho, não me vejo, vejo o mundo com seus olhos de clamor pedindo que não seja mais assim. Quando olho no espelho, não me vejo, vejo os outros olhando para mim com meus próprios olhos.

I Will Follow Him

Twitter: depois de tanto resistir, resolvi conferir que merda é essa.

Vivendo e vencendo preconceitos… Ou não…

o_O

Twitter

Só me pergunto onde é que vamos parar.

http://twitter.com/bartiraferraz

Para evitar a auto-ilusão

A fé, em seu excesso de zelo, torna-se fanatismo. A crítica da razão, o desafio e as dúvidas do descrente podem, entretanto, ser mais úteis para a integridade da fé do que a confiança em nossa própria fé.

Abraham Joshua Heschel, em Deus em busca do homem.

Arrumação.

Às palavras, que perdi.

Dia desses perdi as palavras. Mas não como quem fica embasbacado com alguma situação. Perdi como quem perde um coiso assim num canto qualquer. A linguagem, preservo-a intacta, se é que há alguma valia nisso. As palavras, porém, perdi. Todas.

Não tem muito o que entender mesmo não. Foi exatamente assim que aconteceu. Como num conto fantástico, talvez. Como num canto disfásico – mais provável. Como alguém que perde o corpo e preserva a silhueta. E é como essa bolinha azul onde a gente mora que a minha linguagem se mantém. Completamente sem sustentação. Mantém-se, não obstante. E não é que eu tenha encontrado gestos ou expressões e cunhado criativamente uma substituição. Não é não. Até porque, digamos assim, gestos e palavras poderiam ser sinônimos neste contexto, ou em outros. Confesso, encontro-os todos o tempo todo. Às vezes até, como quem não quer nada, enfio uns debaixo da mobília ou colo que nem chiclete sob a mesa (não estou incentivando a prática, apesar de respeitá-la) e saio de mansinho, deixando lá para alguém, quem sabe, grudar o seu em cima.

Já pensou? Seriam dois corpos fundidos cheios de silhueta e sombra, completamente indiferentes às palavras que perdi.

Ando agora com essa mania de fazer referência a músicas. É só uma forma de dizeres.